“Se”…

Embora 2017 tenha mostrado sinais consistentes de que a recessão brasileira  ficou para trás, como assinalam os índices mais animadores obtidos no ano passado, especialmente na indústria e no agronegócio, não há ainda elementos que justifiquem  imaginar um Brasil recuperado dos estragos causados nos 18 meses do segundo governo Dilma Rousseff. Mesmo se usarmos como referência o último ano em que houve expansão do PIB – 2014, com pífio meio por cento – as variações projetadas para 2017, de 1%, e 2018, estimadas em algo entre 2,5% e 3,5%, não serão suficientes para voltarmos às taxas anteriores a 2015. Com o devido reconhecimento à efetividade das medidas implementadas na segunda metade de 2016 e no ano passado, elas foram apenas um alívio. Para haver uma verdadeira retomada, será preciso crescer algo próximo de 7,5%, que foi o encolhimento acumulado do PIB em 2015 e 2016, o que  provavelmente só acontecerá dentro de dois anos. Mas pode-se dizer, com razoável segurança, que a recessão já passou.

Embora alguns indicadores persistam no vermelho, como o índice de desemprego medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aumentou em 1,2 ponto percentual em 2017, o que tem sido considerado como efeito inercial dos anos anteriores, sintomas claros de recuperação econômica estão presentes em diversos outros índices. A inflação, por exemplo, caiu dos 9,28% em 2016, para 2,8% no ano passado, o que em parte foi efeito da própria recessão mas é um dado expressivo. Na mesma comparação entre os exercícios de 2016 e 2017, a taxa de juros baixou de 14,25% para 7%. A produção industrial saiu de um negativo de 6,6% para 1,5% positivos. O PIB deste ano deve fechar com ligeiro crescimento, algo em torno de 1%, contra a retração de 3,6% medida no ano anterior. Até o nosso risco-país, que mede o grau de confiabilidade dos diversos mercados para investimentos, caiu no ano passado: passou de 370 para 163.

            Nem tudo, porém, são flores. Por exemplo, por trás de um montante de gastos públicos inferior em R$ 34 bilhões à meta fiscal de R$ 158 bilhões aprovada para o ano passado, ocultam-se cortes em investimentos e despesas com serviços básicos como educação e saúde. Cabe aí um exemplo pitoresco de a que ponto chegou a sovinice governamental: a Funai gastou, no exercício findo, não mais que 12 reais por indígena. Assim, o conjunto da obra leva à quase certeza de que o acúmulo de despesas de um ano para outro, do mesmo modo como acontece nas contas domésticas, vai desaguar no orçamento de 2018. Se não houver crescimento substantivo nas receitas da União haverá, inevitavelmente, novos bloqueios de verbas e postergação de gastos. E há que se considerar também um componente político que se embute na questão, exatamente num ano eleitoral, e que, como todos nós observamos ao longo de 2017, não fica barato: as emendas parlamentares, bondade usual do governo federal para obter aprovação de suas iniciativas na Câmara e Senado federais, que chegaram, numa conta por alto, a mais de R$ 10 bilhões.

            Mesmo assim, há certo consenso entre muitos economistas (embora ressalvem que dificuldades com a aprovação das reformas da Previdência e tributária, além de certa instabilidade devida à disputa eleitoral possam ser complicadores) de que o crescimento da economia vai se acelerar este ano. Acreditam também que o aumento do consumo das famílias, já observado no segundo semestre de 2017 como decorrência dos cortes nas taxas de juros e da queda da inflação, vai puxar o crescimento este ano, estimado entre 3% e 3,5%, sem que haja pressão inflacionária. Já o FMI trabalha com uma projeção de alta de 1,5% no PIB, enquanto o mercado financeiro acredita que o índice ficará em 2,7%.

Não há, portanto, muita disparidade entre as estimativas. Mas os inúmeros fatores capazes de afetar o comportamento da economia (e, sim, também da política) ao longo do ano não possibilitam projeções cartesianas. Há muitos “se” em jogo. “Se” a reforma da Previdência for aprovada; “se” a reforma tributária, ainda em passo de tartaruga finalmente acontecer; “se” o novo Congresso, a ser eleito este ano, perceber realmente a necessidade de mudanças e estiver disposto a fazê-las; “se”…

Roberto Luciano Fortes Fagundes

Presidente da Federação de CVB-MG, Presidente do Conselho do Instituto Sustentar e Vice-Presidente da Federaminas