O mercado se descola da política. Ainda bem!

Roberto Luciano Fortes Fagundes

Presidente da Federação de CVB-MG, presidente do Conselho do Instituto Sustentar e vice-presidente da Federaminas

Tudo parecia indicar, no dia seguinte à divulgação do teor da gravação de conversa entre o presidente Temer e o empresário Joesley Batista, que o caos se implantara na economia brasileira. A Bovespa chegou a ter seu pregão suspenso e fechou com queda de 8,8 por cento, a cotação do dólar e o risco Brasil deram um salto e praticamente todas as agências de análise macroeconômica pareciam convencidas de que o turbilhão chegara para valer e afetaria inexoravelmente a lenta, mas perceptível, reversão do quadro recessivo do País.

Felizmente, o day after ficou no singular. Depois do rebuliço, que ainda persistia na sexta feira 19 de maio, passado o fim de semana já ficava claro que pelo menos na economia a tempestade cessara. A Bolsa praticamente se recuperara, o dólar voltou a seu patamar, o setor produtivo continuava operando e os analistas econômicos começaram a mudar de assunto. Na área política, ao contrário, o circo pegava fogo com as prisões efetuadas pela Polícia Federal e ministro algum, nem deputado, senador – e menos ainda o presidente da República –, sabiam exatamente o que ainda viria e ninguém, naqueles dias, era capaz de qualquer análise coerente.

Agora, pouco menos de um mês depois do susto, verifica-se, de acordo com o Relatório Focus do dia 9 de junho, que as expectativas de mercado não foram afetadas. Estão estáveis, com a inflação permanecendo em tendência de queda, a cotação do dólar em ligeira queda na comparação com a do início do mês e a manutenção da projeção de uma taxa Selic de 8,5 por cento até o final do ano. O Banco Central, embora ainda não faça uma avaliação das implicações da tormenta, admite que “o processo de recuo da inflação é robusto e que está monitorando os impactos e atuando para manter a funcionalidade dos mercados”. Afirma também que o Brasil tem amortecedores efetivos que tornam sua economia menos vulnerável à incerteza política. Idêntica visão tem também o Banco UBS, que em relatório divulgado no início deste mês pondera que os fundamentos mais sólidos da economia brasileira permitiram que o mercado financeiro tivesse uma reação mais pontual e controlada ante a crise política.

Diante desse cenário já é possível extrair pelo menos uma conclusão: a de que o mercado, que vinha até então rigidamente atrelado à política, acompanhando seus altos e baixos, parece ter dela se descolado e passado a guiar-se por si próprio, num inegável amadurecimento, como acontece em países desenvolvidos. Nestes, crises políticas – das quais não estão imunes, ao contrário – são o que são: crises políticas. Naqueles países, elas raramente afetam seriamente os negócios, que contam com a blindagem de regras estáveis na economia e da autorregulação do mercado.

Há porém um fator que pode desestabilizar esse cenário: a própria política, já que esta, ao contrário do mercado, acusou fortemente o baque da crise. A tendência de recuperação econômica verificada neste ano e meio de governo Temer, que resulta da expectativa pelas reformas, especialmente a trabalhista e a da Previdência, poderá ficar paralisada, ou mesmo ser revertida se o Congresso Nacional não superar suas próprias ansiedades e contradições e colocá-las logo em votação e se, também, a situação do governo Temer não se definir de uma vez.

Um passo importante para a sua permanência no poder já foi dado, com a vitória no TSE. Quando o ministro Gilmar Mendes, dias depois do julgamento afirmou que suas posições eram guiadas pelos interesses do País, referia-se, mesmo sem ser explícito, ao vácuo que sucederia à cassação de Temer e que faria voltar à estaca zero todos os avanços já obtidos em seu governo. E este risco, ainda real por força de possível denúncia do Ministério Público Federal, pode pôr tudo a perder.