Economia Engessada

 

Roberto Luciano Fortes Fagundes

Presidente da Federação de Convention & Visitors Bureau-MG, e vice-presidente da Federaminas.

Saudadas pelas corporações e execradas pelas representações trabalhistas, a terceirização de atividades, já em vigor, e a reforma trabalhista, cuja aprovação pela Câmara Federal precisa ainda ser referendada pelo Senado, podem, efetivamente, simplificar bastante as relações entre patrões e empregados, o que, espera-se, proporcione ganhos de produtividade e eficiência. Mas não são suficientes para desemperrar a economia – empresas e investidores precisam de sinais mais nítidos de que as mudanças são para valer. Só assim tirarão do papel aquilo que hoje, na maioria dos casos, não passa de intenções. Consistentes, mas meras intenções.

Foram anunciados, por exemplo, investimentos externos da ordem de 75 bilhões de dólares em atividades produtivas e, por meio do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), de concessões nos setores de transportes, energia e saneamento que, espera-se, signifiquem a entrada de algo em torno de 45 bilhões de reais no caixa do governo federal. Paralelamente, embora a economia venha dando alguns sinais positivos, como inflação dentro da meta, balança comercial superavitária e previsão de um leve crescimento do PIB em 2017, o desemprego só vem aumentando (hoje há 14 milhões de brasileiros sem ocupação formal) e, segundo o próprio IBGE, a atividade econômica no ano passado “foi um desastre”, regredindo ao nível de 2014.

Mas afinal de contas, por que tantos dados desencontrados e, em alguns casos, francamente opostos? Simplesmente porque a economia está engessada diante de inúmeras incertezas de natureza política, que no caso da terceirização e da reforma trabalhista foram superadas mas que, agora, põem o governo federal diante de uma muralha: a reforma da Previdência Social. Apesar de a natureza de sua formulação ser essencialmente econômica – evitar a falência do sistema já em médio prazo e dar credibilidade ao governo federal junto ao mercado para  que este destrave seus investimentos – o caráter impositivo da medida e sua impopularidade, apesar das várias  atenuações já concedidas, a transformou numa questão puramente política. Por trás dela está a própria sobrevivência de deputados e senadores que, muitos deles já escaldados com a Operação Lava-Jato, topam agora com a possibilidade, concreta, de que votos a favor da medida terão como preço suas reeleições.

Isto se tornou mais patente com a divulgação de pesquisa do Datafolha, publicada no feriado de segunda-feira, mostrando que o brasileiro está maciçamente contra a reforma. São números impressionantes: segundo o instituto, 71% dos homens e 69% das mulheres a rejeitam, há maioria antirreforma entre todos os grupos sociodemográficos e a taxa cresce entre brasileiros que ganham entre 2 e 5 salários mínimos (74%), jovens de 25 a 34 anos (76%) e os com ensino superior (também 76%). Não mais que 23% da amostra são a favor das mudanças. Neste momento em que escrevo, não tenho ainda notícias das reações no Legislativo e não vi comentários do Executivo a respeito, mas a esta altura em que sou lido elas já terão vindo. Fica agora mais difícil, tudo parece  indicar, desengessar nossa economia.